sexta-feira, 6 de abril de 2012

Entrevista com Augusto Minighitti


Buenas, gurizada. Enquanto meus posts andam devagar quase parando, as entrevistas continuam sem falta. Hoje trago um artista com muita história pra contar: Augusto Minighitti.

Ilustrador, fotógrafo, este paulistano possui um trabalho fantástico, resultado de anos atuando em trabalhos publicitários, editoriais, para a TV, animação, e da convivência com grandes mestres da ilustração e quadrinhos nacionais.

Minighitti, ou Minni para os mais chegados, está para lançar um livro com seus sketches, e em breve terá novidades a respeito. Quem acompanha seu trabalho sabe que com certeza será uma excelente fonte de referências para seus estudos, com figuras cheias de movimento, naturalidade e expressão. Conheçam agora um pouco sobre este artista e confiram um pouco do que ele tem a contar:


1 - Começando então pelo início, meu caro. Como e quando surgiu o gosto pela arte? 

AM:  ok, vamos nessa!!!...Surgiu com o 1º contato com a TV, livros e revistas em quadrinhos. Nesta minha época costumava assistir em uma grande TV General Eletric em branco e preto os desenhos animados do marinheiro Popeye e Pica-Pau que  nem eram dublados,  tinha também em casa vários livros ilustrados dos grandes clássicos e claro os “comics” que auxiliaram imensamente a ler e escrever e antes de entrar na escola já estava alfabetizado!....com tanta informação visual bacana não poderia ser de outra maneira, o gosto pela arte surge desde sempre! 




2 - Atualmente com tantas facilidades que a internet nos trouxe, o conhecimento está aí ao alcance de todos, mas até poucos anos atrás as coisas eram bem diferentes. Como foi para você estudar os conceitos de desenho em uma época em que a informação era um artigo raro e caro?

AM:  Realmente a tecnologia trouxe muito conhecimento, isto é, pra quem sabe usar corretamente e ter um pouco de  discernimento.  Você está certo, muitas coisas eram de certa forma difícil, por isso usei muito as histórias em quadrinhos como muleta copiando os grandes mestres, Hall Foster, Alex Raymond,  entre tantos, era a forma mais barata, com alguns centavos dava pra comprar várias delas em feiras livres. A questão do “caro” hoje em dia é relativo, veja quanto não custa um ótimo curso de Design , Modelagem, Concept entre tantos outros...ter um mestre do seu lado para te orientar sempre vai sair caro...você até pode ser um bom autodidata, mas vai levar no mínimo o triplo do tempo pra chegar em algum lugar....


3 - E quais eram as áreas de atuação para um ilustrador quando você iniciou sua carreira? Em qual você começou e como foi este início?

AM: As mesmas de hoje em dia, apesar de várias áreas terem sido criadas. Tinha a Publicidade que trabalhava com um novo conceito de época, implantado pelo grande publicitário Alex Periscinoto que trouxe EUA chamado de dupla de criação (redator + diretor de arte) e geralmente este diretor de arte era também um Ilustrador, as editoras também usavam praticamente ilustradores, entre outras áreas, no meu caso eu comecei como assistente numa antiga agencia do Pacaembu, adquirindo pouco a pouco experiência com os mestres da época...



4 - Você acabou (sem querer) dando aulas de ilustração, e acabou pegando gosto pelo ofício. Conte como começou esta história:

AM: O que é a natureza rsss   quando pensei que já estava encaminhado nas agências de Publicidade, veio a tona a área do ensino, nesta mesma época em que estava trabalhando na agência perto do Pacaembu, eu passava na Panamericana para tomar um café com os antigos mestres, numa dessas idas e vindas encontrei com o Manoel Victor Filho que me convidou na mesma hora para substituir um dos professores, a grana era muito melhor que na agência, fiquei com as aulas e nas horas vagas fazia os “frellas”, você até que tinha um bom retorno financeiro, bastava trabalhar 48 horas por dia!! Rssss... mas o maior retorno foi mesmo as amizades com os mestres e ver alguns grandes artistas, como o Schaal, Vilela, Alê Santos entre tantos outros que estão se dando muito bem hoje em dia... foram quase 20 anos nesta via sacra, depois montei um estúdio de arte com Nilton Santoniero e Munhoz numa travessa entre a Consolação e Frei Caneca, lugar muito bem freqüentado
 por travestis, cafetões, prostitutas pederastas e políticos...rssss..acho que foram mais uns 2 ou 3 anos até ser convidado por um Centro Universitário a montar, coordenar e dirigir os cursos de Desenho, Designer Publicitário, Designer de interiores, Artes plásticas...e Lá se foram mais 10 anos entre o ensino e os “frellas”!!!..atualmente estou preparando alguns cursos para montar uma sala\Studio para ministrar novamente algumas aulas e continuar com os trabalhos de arte para agências e produtoras...





5 - Você trabalhou durante boa parte de sua carreira com ilustração publicitária. Como era trabalhar as agências antes e como é atualmente, na sua opinião?

AM:  Tirando a tecnologia, não vejo tanta diferença, talvez porque nunca abandonei a carreira e fui sempre me adaptando ao novo... acho que o pior de tudo é quando temos que lidar com menino que tirou ontem o seu diploma e hoje usa o termo de Diretor de Arte, não tem vivência e usa algumas bobagens acadêmica que decorou e aprendeu com algum professor que nunca colocou um pé dentro de uma agência para aplicar em um brienfig profissional...isso realmente é um porre!!! Rsss...




6 - Seu trabalho é muito solto, graças a todo este tempo de experiência. Como é o seu método de trabalho, e o que e quem você estudou para alcançar tais resultados?

AM: Até hoje eu estudo, não pode parar nunca, tento absorver tudo que posso e naturalmente com o tempo vamos apurando o traço. Meu método de trabalho continua sendo o bom e velho grafite e papel para colocar minhas idéias ou algum brienfing nos eixos!!!... dependendo do projeto posso ser um artesão ou um tecnólogo!!rsss.. por exemplo, acabei de fazer hoje um storyboard para uma produtora e foi mais ou menos assim:

 - 2ª feira a tarde me chamaram para uma reunião com o diretor do filme que mora em NY, fui para a produtora e pelo Skype ele foi me passando as diretrizes do filme e fiquei desenhando na hora o conceito e os elementos  que ele vai colocar nas filmagens.

 - Aprovado e com estes rascunhos em mãos voltei para casa e comecei a fazer toda a pesquisa !...com as referências em mãos desenhei os 29 quadros ou frames em grafite sobre papel sulfite 95 gramas...algo bem simples...scaneei em alta resolução  e usei várias ferramentas e tutoriais
 para finalizar...

Esta é uma das diferenças, antigamente para separar as referências era um parto, depois com pincel pintar quadro por quadro, um trabalhão sem fim...conclusão: 4ª feira, todo o trabalho entregue!





7 - Você teve contato com grandes nomes do quadrinho nacional durante estes anos, desenhistas como Álvaro de Moya, Sebastião Seabra, entre outras feras que fizeram história. Como este contato influenciou no seu trabalho? Você chegou a produzir quadrinhos, também?

AM: Tive a sorte e o privilégio conhecer e ser amigo de muito deles. o Seabra é meu amigo de face, vira e mexe converso com ele, e por incrível que possa parecer, não o conheço pessoalmente acho que deve ser uma entidade de algum “nego veio”! rsss..quando eu era garoto ele e o Franco da Rosa já produziam uma tira em quadrinhos com o personagem do Capitão  no jornal Noticias Populares. Sempre acompanhei a carreira dele, tem um desenho e estilo que gosto muito e é uma pena ele não ter nascido nos EUA. Quanto aos amigos não virtuais, o contato influenciava e ainda influência muito até hoje...fiz poucas coisas de quadrinhos, o que é uma pena mas nesta terra de Vera Cruz só mesmo os grandes Heróis de quadrinhos de antigamente sobreviviam. Colonnesse, Zalla, Juarez Odilon, Nico Rosso, Rubens cordeiro, Claudio Seto entre outros....mas fiz alguma coisa para Mestre do Terror e para a versão brasileira da Heavy Metal....quanto a ouvir musica trabalhando... sempre! rsss... depende do projeto o estilo muda drasticamente para eu poder entrar no clima... o lugar para desenhar começa arrumado, depois de uns 3 minutos o caos impera... sempre procuro, na medida do possível, usar os matérias tradicionais o que sempre não acontece, mas vou em frente, não tenho muitas refações para fazer... mas quando vem, calmamente xingo até a última geração!!! 



8 - O mercado está sendo tomado pela arte digital. Em contrapartida, seu trabalho é bastante artesanal, usando muito nanquim, aquarela, guaxe, entre outros materiais. Como você lida com isto?
AM: Vejo muita arte digital... algumas bacanas outras muito ruins, em comum quase todas elas não tem alma... podem até ter um bom acabamento... mas um estilo marcante é muito difícil, quase raro! Gosto muito dos trabalhos tradicionais, da textura dos papéis, do cheiro do guache, tintas acrílicas...mas claro que hoje em dia tento usar o equilíbrio entre o tradicional e o digital...mas o tradicional não sai de moda nunca...podem até mudar as ferramentas... mas desenhistas são desenhistas, principalmente nos bastidores...é só assistir os extras de qualquer DVD de animação da Pixar\Disney, Dreamworks entre outras...veja se os desenhistas não são no fundo tradicionais... geralmente e quase sempre acabo divulgando os meus trabalhos clássicos, por ter uma assinatura em cada traço, cada linha cada mancha ou cada erro, o que me torna mais humano, os digitais vão apenas para os clientes e nada me significam, é um trabalho como outro qualquer que nem vão saber se fui eu que fiz ou se foi o artista X... é o que te falei, hoje procuro o equilíbrio!! 






9 - Durante sua carreira você trabalhou em muita coisa, desde ilustração editorial até material para a TV. Conte um pouco sobre sua trajetória:

AM: fiz muitas coisas diferentes, Ilustrações, Cenários. Pintura, Quadrinhos, Rotulagem, Painéis, Projetos Gráficos, animação... etc etc... o desafio de algo novo motiva!!... Claro que se fosse pra escolher o que mais gostaria de fazer seria Quadrinhos, sem dúvida nenhuma...mas a vida nesta terra de Vera Cruz nem sempre funciona exatamente como queremos...quando garoto fiz muitas coisas para pagar meus cursos...vendendo bonés na praia, trabalhando na feira, carregando caminhão, soldando peças em metalúrgicas, querendo trabalhar com desenhos e portas se fechando na cara... tudo um saco!... mas nunca perdi o foco... no meio desse caminho tive a sorte de encontrar com o grande artista e mestre Manoel Victor que me orientou muito... de resto acho que sou um camarada de sorte... faço a única coisa que sei fazer... desenhar... !!:)



10 - Vou te pedir para listar 5 artistas que te fazem pensar: putakipariu, mas que trabalho f...@:
AM: Só 5 artistas???rsss... são tantos..mas vamos lá...
Norman Rockwell: era um grande Ilustrador e pintor americano de um talento que putakipariu... fez mais de 300 capas para a revista Saturday Evening Post durante mais de 40 anos, retratava o American Way como ninguém retratou até hoje, e foi incrivelmente esnobado pelos críticos de arte da época... cujos palhaços ninguém mais sabe o nome, mas as obras e o nome desse grande artista continuam vivos até hoje!
http://www.nrm.org/

Frank Frazetta: um baita ilustrador, conheci seus trabalhos na década de 70... com muito custo comprei os 3 volumes...via e revia suas ilustrações vigorosas diariamente....
http://frankfrazettamuseum.com/

Gill Elvgren: não dá pra deixar de fora este grande artista que pintava as pin-ups mais bonitas e gostosas  que já vi na vida, trabalhou muito para a publicidade americana fazendo ilustrações para a General Eletric, Coca-Cola entre outras...
http://www.gilelvgren.com/GE/

Robert McGinnis: outro grande artista, foi aprendiz nos estúdios Disney, foi para a Dell onde fez muitas ilustrações para capas de revistas, cartazes... com um belo desenho e uma composição fantástica, fazia também muitas mulheres usando apenas calcinhas, deixando a vida mais excitante! ..ainda vivo aos 86 anos..
http://www.americanartarchives.com/mcginnis.htm

Bob Peack:  com seu Design inovador criou vários cartazes que até hoje são conhecidos, até Plutão, Star Trek, Superman, Apocalypse Now entre outros.....
http://www.bobpeak.com/

 Foi muito difícil deixar de fora outros artistas ilustradores e “quadrinhistas” caras como Neal Adams, Moebius, Serpiere, Manara, Joe Kubert Jim Bama entre tantos, fiquei apenas com os artistas americanos clássicos...pra saber mais sobre esses artistas e seus trabalhos basta colocar o nome deles nos googles da vida e boa viagem!!! 





11 - Além de desenhar, você faz fotos muito interessantes. Como a fotografia ajuda no seu trabalho com desenho?

AM: Putz, adoro fotografia, tenho uma pequena coleção de maquinas antigas analógicas!!! Rsss.. as fotos sempre ajudaram e muito os ilustradores...é uma mão na roda!... mas gosto mesmo de sair fotografando tudo que acho interessante... o engraçado que tenho muitas fotos minhas no Face, estou chegando a conclusão que eu mesmo me acho interessante!! Hahahaha... mas também gosto  de ficar esculpindo algumas coisas para me “desestresar” rssss... quem sabe algum dia eu consiga fazer um busto meu, transformar em bronze e colocar na porta de entrada de casa!! Rsssss 





12 - Augusto Minighitti, foi um prazer entrevistá-lo e agradeço por compartilhar um pouco mais sobre sua experiência profissional. Diferente dos entrevistados anteriores, não o conheço pessoalmente, mas acompanho seu trabalho pelas redes sociais, e elas constantemente são referências para mim. Para finalizar, o que você gostaria de falar a todos aqueles que estão começando a rabiscar nas páginas finais de seus cadernos escolares e àqueles que estão buscando trabalhar com ilustração?

AM: Meu caro amigo Charles, o prazer foi meu e eu que te agradeço por sua gentileza! Não sei se foi exatamente o que vc queria saber mas a vida de desenhista é assim mesmo, sol em um dia chuva, noutro, sorte, azar....o bacana mesmo é poder deixar alguma coisa para o pessoal que está chegando, não acho que deva ser referência pra ninguém, mas de toda forma tentarei fazer o meu busto de bronze!!! Hahahahaha...!!!... para o pessoal que estão começando a rabiscar nas páginas finais de seus cadernos, quando acabar comece outro... outro... outro... outro... e muitos mais outros sempre!.. estude sempre, pesquise, leia, veja filmes, teatro, fotografe, pinte... e vez ou outra corra atrás de uma mulher (depende do gosto de cada um), porque ninguém é de ferro rssss...mas mantenha o foco que tudo dará certo...!!!:)
..vamos ver se uma hora tomamos um café Charles...
Um grande abraço a todos.







Bueno gurizada, esta foi a entrevista desta semana. Levei um bom tempo selecionando as imagens para este post, pois ele possui muito material, e acreditem, teve muita coisa boa que acabou ficando de fora. Vocês podem acompanhar seu trabalho através das redes sociais como facebook e orkut, mas lembrem-se apenas de não serem inconvenientes. Ninguém gosta de uma mala sem alça nos incomodando, mesmo que virtualmente, ok?! Bom senso, galera.

Augusto, agradeço por ter cedido um pouco do seu tempo para responder a estas perguntas. Acredite, você é referência para mim e muitas pessoas mais, e espero que consiga fazer seu busto de bronze para pôr na porta da sua casa. E quanto ao café, uma hora que eu for a São Paulo dou um jeito de avisar para marcarmos. Valeu mesmo.

E gurizada, por hora é isto. Nos vemos num próximo post ou entrevista.
Hasta luego, indiada!!

sexta-feira, 30 de março de 2012

Entrevista com Michelângelo Almeida


Buenas, gurizada!! Post novo, entrevista nova, e também uma "novidade" nova: como a galera tem gostado dos posts com convidados, afinal de contas o número de visitações diárias passou de umas 5 para mais ou menos 10 pessoas (hehe), a partir de hoje as sextas-feiras serão os dias das entrevistas.

Hoje, dando continuidade à minha investigação para descobrir se é a água ou a rapadura que faz com que tantos artistas talentosos surjam do Ceará, entrevisto Michelângelo Almeida, ilustrador, animador, character designer, entre outras tantas atividades. Mas bueno, agora chega de enrolação e vamos para a entrevista:



1 - Bueno, começando com a pergunta básica: quando você descobriu este gosto por desenhar e a partir de que momento você pensou "macho, acho que posso viver disso"?
MA: Cara, pra te falar a verdade, acho que você só percebe que "sabe" desenhar alguma coisa, quando uma roda de pessoas (seus colegas de escola geralmente) se forma ao redor de você, pra te admirar vendo você rabiscando... Pelo menos comigo foi assim, acho que toda criança nasce "querendo" desenhar, mas essa aptidão vai se perdendo quando ainda criança, as pessoas vão descobrindo outras formas de se expressar, dai uma certa vez, me falaram que eu podia ganhar uma grana com isso, mas nunca me disseram como, auheuaheaheua tive que descobrir sozinho como ganhar a vida dessa forma, mas basicamente comecei querendo ser desenhista de HQ. Certa vez um tio meu, me pagou por um desenho que ele queria colocar nas mochilas que ele fabricava, num bairro da periferia de Fortaleza, (pensando agora, acho que esse foi o meu primeiro freela, hhahahaha), dai com a graninha na mão indo pra casa bem feliz, passei em frente a uma banca de jornal vi a SPAWN#40 à venda, e decidi comprá-la, desde então começava minha paixão por quadrinhos e a vontade de "estudar" desenho. Nesse momento eu não sabia se ia viver de "Arte", mas quando eu vi o nome do "Greg Capullo" nos créditos como desenhista, me toquei que o caminho poderia ser por ali.





2 - No Ceará você teve a oportunidade de conhecer muitos artistas excelentes, tanto da ilustração quanto da escultura. Fale sobre este período e como eles influenciaram no seu desenvolvimento como ilustrador:
MA: Olha, falando em artistas no Ceará, se tem uma pessoa que possa responsabilizar pelo artista que eu sou hoje, esse alguém chama-se "ALEX OLIVER", ele foi o primeiro profissional que tive a oportunidade de conhecer, e ele me abriu a primeira porta tanto profissionalmente, quanto pra conhecer vários outros artistas talentosos que acompanho e admiro até hoje, como o Robberto Fernandez, Al Rio (descanse em paz Mestre), Diego Maia, Paulo Ítalo e outras grandes figuras que tive o prazer de conhecer. O início desse período foi muito precoce na minha vida, tinha só 14 anos quando um vizinho meu (Jander Rifane), disse que eu tinha que conhecer um amigo dele que mandava MUUUuuUUUUito BEM no desenho e que eu tinha que levar meus desenhos lá pra esse cara dar uma olhada, esse cara era o Alex Oliver... Quando entrei no estúdio dele, foi uma sensação que me lembro claramente até hoje, todas as paredes FORRADAS de desenhos e uma cabeça do PREDADOR esculpida em tamanho real bem do lado da prancheta de desenho, mermão aquilo pra mim foi um choque, mal conseguia acreditar que "aquilo" existia, esse foi o EXATO momento em que o "verme" do desenho entrou na minha alma e a corrói até hoje quando me deparo com trabalhos de outros artistas que me motivam a continuar estudando, esse também foi o dia que eu tive a CERTEZA que eu não queria fazer mais nada na minha vida a não ser desenhar, 2 anos depois ele me chamou pra trabalhar numa empresa de arquitetura, na qual ele estava empregado na época, lá conheci o Robberto (Fernandez), esse foi outra grande influência, porque além de ser um baita artista, esse cara me ensinou a criar e a viajar com os meus desenhos... Posso afirmar com muita convicção que se não tivesse convivido com pessoas tão talentosas ao meu redor, certamente teria me frustrado no meio do processo e estar nesse momento trabalhando com alguma outra coisa...



 







3 - Você apostou no seu trabalho e decidiu buscar novos mercados Brasil afora. O que o levou a tomar esta decisão e como você se preparou para esta jornada?
MA: Então, essa resposta acaba reforçando o que havia dito na pergunta anterior, se você está rodeado de gente que tem ambições parecidas, a motivação aumenta e o resto acontece. Depois de algum tempo trabalhando em Fortaleza, não mais trabalhando com arquitetura e querendo crescer financeiramente, conheci as limitações do lugar onde morava.
O Robberto certa vez me ligou (isso em 2006) dizendo que ele tinha recebido uma proposta de uma empresa de games la de Porto Alegre, a essa altura eu já estava com 21 anos, trabalhando de freela de illustração ja fazia uns dois anos, já sabia 3DMAX, Photoshop, Corel, e estava fazendo desenhos comissionados pros EUA à algum tempo, pois bem, eu desejei boa sorte pra ele e tava torcendo pra tudo dar certo. O Alex também já tinha se mandando do Ceará e tinha descolado um trampo pro Diego Maia lá em São Paulo, lógico que me passou pela cabeça que "mermão, se eu não me mexer, eu vou acabar aqui no Ceará, sozinho, e fazendo a mesma coisa ficando no mesmo degrau..." Mas... o Robberto, que também sabia que todos nós estavamos afim de buscar novos horizontes me falou o seguinte "Cara, vou lá ver qual é, fui chamado pra uma entrevista e se o negócio for bom, vou falar de você lá também". Quando ele retornou ele me falou só o seguinte: "Os caras querem ver o teu material".... Velho, entrei em PÂNICO, escaneei TODOS os desenhos que eu tinha, terminei TODOS os modelos que eu havia começado e comecei outros, praticamente não dormi uma semana toda, montei um site e mandei, pouco mais de um mês depois estava na SouthLogic Studios em Porto Alegre, do outro lado do Brasil, numa cultura TOTALMENTE diferente da minha, estranhando o clima (não sabia o que era frio até então) e descobrindo um outro mercado, o de games. Quando isso aconteceu, descobri que o "Brasil" era logo ali, e assim, trabalhei em Florianópolis, onde retornei à cerca de um ano e trabalhei em São Paulo durante quase 3 anos na Vetor Zero.








 4 - O Brasil é um país enorme. Como foi para você lidar com a distância da família e dos amigos, e quais foram as dificuldades que você teve no início em um novo lugar?
MA: Haaa poisé, quando você corta as raízes e muda de estado e de cultura, é sempre uma barreira a ser quebrada. A distância da família foi muito difícil, e eu tinha um círculo grande de amigos em Fortaleza, e os primeiros 6 meses são fundamentais pra adaptação em qualquer lugar. Quando você chega em um lugar novo, inevitavelmente você se pega fazendo comparações com sua cidade natal, e até cair a ficha leva-se tempo, e como acabei de mencionar, tinha o fator climático contando "contra", imagina só, eu acostumado aos 33ºC diários no Ceará, desembarcando em pleno mês de Maio, no Outono gaúcho, numa noite que fazia 14ºC, eu chegava a pôr a mão pra fora da janela e lembrando de sentir algo "parecido" quando eu tinha que descongelar o freezer na casa da minha mãe.. Uma coisa que me ajudou MUITO foi a convivência com o Robberto e o Paulo Italo nesse período, acabamos sendo contratados juntos e um sempre segurava a barra do outro, já que estávamos no mesmo barco, foi um período que aprendi bastante não só profissionalmente mas como ser humano também, convivência e saudade são dois excelentes professores!





 5 - Você já teve a oportunidade de trabalhar com sua arte em muita coisa, produzindo material tanto para o Brasil quanto para o exterior. Que tipo de material você já produziu e qual você mais gostava de fazer?
MA: Trabalhei com várias coisas que felizmente me acrescentaram muito como profissional. Fiz Quadrinhos, Pin-ups, Concept, Perspectiva de Arquitetura, Story-Board, Modelagem, até Professor de Desenho eu tive a oportunidade de ser. O que eu acabei gostando mais de fazer até hoje é uma coisa que eu evitei fazer até onde deu, que é story-board. Quando trabalhava com arquitetura tive que fazer vários pra descrever as atrações temáticas que eram desenvolvidas lá, mas eram feitas de uma maneira que não davam nenhum prazer e sempre o prazo e a indecisão dos responsáveis faziam com que meus desenhos saíssem bem ruins. Quando fui trabalhar na Vetor Zero, tive a oportunidade de conhecer EXCELENTES profissionais do ramo como Marcos Llussá (Bogus), Marcelo Souto, Francisco Sanches, André Leão, João Ruas... e ai sim eu APRENDI a fazer e a gostar de contar uma história com meus desenhos, e ficava muito feliz de ver os animatics que desenhávamos se tornarem filmes de animação de qualidade internacional. Hoje trabalho como Coordenador de Produção de uma empresa de jogos, é um trabalho bem diferente, mas também sinto MUITO prazer quando o trabalho de uma equipe converge pra um resultado comum e a qualidade agrada não só o nosso cliente bem como a equipe em si, é bem gratificante.



 
6 - O seu trabalho tem uma qualidade técnica e artística muito grande. Fale um pouco sobre o seu aprendizado e o que faz para continuar evoluindo:

MA: Obrigado, acho que isso é resultado de todas as experiências profissionais que tive, isso fez com que me adaptasse à vários estilos e buscasse técnicas que me permitissem concluir o trabalho, mas sempre compro livros e quadrinhos que me mostrem algo que tenha um diferencial de qualidade, ajuda a manter as ideias sempre frescas e motivado a alcançar a qualidade que você acaba de se deparar. Procuro sempre ler algo a respeito de técnicas de animação, desenho escultura, etc...  vejo e coleciono muita coisa sobre longas de animação, principalmente os livros "the art of ...". Lá tem TUDO que eu gosto de ver, HA!  e assistir bastante desenho animado, essa é a melhor parte de "estudar" hahahahaha!








7 - Além de desenhar, você também modela e anima. Como este contato com o 3D influencia no seu trabalho 2D?
 MA: É meio complicado, porque em quase 100% das vezes eu me pego pensando "Pow, não posso desenhar isso, por que não dá pra modelar!" e isso é um SACO, mas por outro lado, esse conhecimento do 3D fez com que meu desenho (isso é o que me falaram) se tornasse bem atrativo pra quem modela. Já pra animação o fato de saber desenhar me ajudou MUITO, o fato de conhecer poses, expressões faciais, gestos, me serviu de preparação pra absorver o que aprendi no curso de animação 3D que fiz a algum tempo atrás.






8 - Você é fã de animação, principalmente as feitas por estúdios como a Pixar e Dreamworks. Você pensa em trabalhar em um estúdio como estes fora do país? Qual seria o caminho para chegar a um estúdio deste porte?
MA: Se um dia tiver a oportunidade e se realmente valer a pena ($$), ora bolas, por que não!? Tenho um amigo que também é cearense (se você ainda não conheceu um, um dia vai conhecer, nós Cearense estamos em todo lugar :P)  e hoje trabalha na Blue Sky (Daniel Lima). Esse cara estava na Vetor e saiu pouco depois que eu entrei e era um cara FENOMENAL no que ele fazia, ele é Character Technical Director e vi alguns trabalhos do portfólio dele. O trabalho dele tem um "diferencial" que chamou a atenção do pessoal do Saldanha, resumindo, acho que não só eu mas todo mundo que almeja chegar num degrau alto como a Pixar, Blue Sky, Dreamworks tem que se DEDICAR e FOCAR pro seu trabalho chamar mais atenção dentre os milhares que devem chegar na porta desses caras.



9 - Mais uma de costume: cite 5 (e apenas 5) desenhistas que te fazem abrir a boca e gritar: OOOOH MYY GOOOOOOOOOODDD:
MA: Ok! Lá vão:
Nicolas Marlet: Fala sério, esse cara é character design na Dreamworks e fez os personagens do "Kung Fu Panda" e os de "Como treinar seu Dragão", nem preciso falar mais nada....
http://artofnicomarlet.tumblr.com/

Bobby Chiu: Tive a oportunidade de ir a uma palestra dele em 2010, esse cara é a prova de que é possível se chegar longe com muito profissionalismo e dedicação, um exemplo a ser seguido;
http://www.imaginismstudios.com/

Adam Hughes: Seu trabalho me faz suspirar até hoje, apesar de não trabalhar com pinups a muitos anos, sempre fico com um brilho nos olhos quando vejo material novo na sua galeria!
http://adamhughes.deviantart.com/gallery/

Glen Keane: Cada desenho desse Senhor é uma aula a ser seguida
http://theartofglenkeane.blogspot.com.br/

Paul Felix: Concept Artist na Disney Animation Studios, quando eu crescer eu quero ser ele :)
http://unofficialpaulfelix.blogspot.com.br/

 


10 - O dia-a-dia de quem trabalha com artes gráficas aqui no Brasil é bastante complicado para a maioria, ainda mais para quem está começando. Fale um pouco sobre as dificuldades e imprevistos que acontecem constantemente e as loucuras tem que ser feitas em alguns momentos para entregar os produto dentro do prazo:
MA: Meu amigo, se eu for contar cada doideira que eu passei desde 2001, quando eu comecei minha vida profissional, não iria caber nesse post, mas uma coisa é certa, o mercado no Brasil dificilmente vai mudar. Sempre os prazos vão ser apertados, geralmente a grana por trabalhos de arte não é o suficiente pra sanar nossa contas mensais com conforto e folga, SEMPRE vai haver mudanças e solicitações (nem sempre) sem sentido por parte dos diretores ou dos clientes, e certamente você vai virar alguma noite na sua vida, seja pra entregar um job, ou pra melhorar seu portfólio, se você quer ser artista e quer viver de arte encare isso como uma etapa a ser vivida durante a sua vida profissional, e trabalhe pra que isso não seja um fator "constante" durante a sua carreira. Conviver com bons profissionais tornam as madrugadas menos desagradáveis e em alguns casos até divertidas (geralmente as melhores piadas acontecem fora do horário do expediente), mas obviamente nunca saudáveis em excesso.

 






11 - Cada artista tem o próprio processo de trabalho. Como é o seu?
MA: Pesquisa é o fator chave. Antes de começar qualquer job, separo todas que preciso numa pastinha, nessa hora google e youtube são fundamentais, faço um sketch pequeno onde resolvo parte da ideia, escaneio e levo pro Photoshop. Lá finalizo de acordo com a proposta, ou dou um "trato" no lápis.. enfim finalizo o trabalho. Pode parecer meio estranho mas adoro trabalhar ouvindo notícias, quando não, ouço bastante Metallica mas na real sou bem eclético, ouço desde rap até chorinho, depende do dia, do meu humor e o job...
 




 


12 - Bueno, gostaria de agradecer pela entrevista, e pra finalizar, o que você gostaria de dizer para quem está estudando ou buscando uma oportunidade de trabalho na área?
MA:  Bom, eu é quem agradeço pela oportunidade de compartilhar com vocês essas histórias. É comum no começo quase sempre a gente investir muito tempo tentando se achar no mercado ou no meio dos vários caminhos que o nosso talento nos proporciona, mas se eu puder dar um conselho pra quem esta começando, esse conselho seria FOCO.
Se você quer ser animador, estude pra ser o CARLOS BAENA da animação, se você quer ser o o próximo ALEX OLIVER e ter todos os demônios do inferno modelados e salvos no seu HD, estude pra isso, se você quer trabalhar num Game AAA como modelador, concept artist, rigger, nem termine de ler esse post, VÁ ESTUDAR, eu procuro fazer sempre um desenho ou um estudo pra me manter atualizado no mercado, se tivesse mais tempo, estudaria mais, mas certamente quem já está no marcado a algum tempo, com certeza esta estudando pra se manter nele, e quem quer entrar tem que estudar, se dedicar e também fundamental, fazer uma boa rede de contatos, sempre deixar uma porta aberta ao sair (das empresas que trabalhar, não a porta de casa), e absorver o melhor de cada lugar ou profissional novo que conhecer.
E ai?! Já fez algum desenho hoje!?
 



Gurizada, é isto. Espero que tenham gostado da entrevista, e para quem quiser conferir mais do trabalho do Michelângelo, podem conferir nos links abaixo:
http://michelangelo.cghub.com
http://michelangeloalmeida.blogspot.com.br/

Se você tem sugestões, gostaria de saber um pouco mais sobre algum assunto ou quer me puxar as orelhas, deixe um comentário ou mande um e-mail para arteiros.sa@gmail.com
E agora vou ficando por aqui. Hasta luego, indiada!!

Ahh, só para constar, o número de visitações está bem maior que 10!! Após esta entrevista, aposto que chega a uns 17 ou 18!!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Detalhando um pouco mais


Buenas, gurizada. Estou passando em muito da hora de dormir para começar uma nova semana de trabalho, mas é que me empolguei trabalhando um pouco mais nesta ilustração. Sim, está demorando pra caramba, mas como neste caso o cliente sou eu mesmo, e eu sou extremamente exigente comigo mesmo, mas bastante tolerante com o prazo, estou indo com calma, testando técnicas novas e me divertindo bastante.

Assisti hoje ao filme novo do Conan, e como não criei grandes espectativas sobre ele, até que gostei. As vestimentas estavam bem bacanas, achei colorido em demasia, mas os matte paintings dos cenários estavam bem legais. No geral foi divertido, uma aventura despretenciosa que dá pra encarar por 110 minutos. Se eles tivessem brincado com as cores como ocorreu em The Lord of the Rings, onde em certos momentos uma cor era predominante, teriam conseguido criar uma atmosfera melhor, mas mesmo assim está valendo. Da maneira que ficou, parecia mais um episódio com um orçamento maior daquelas velhas séries dos anos 90, Hércules, Xena, mas com mais sangue e mulheres nuas.

Mas voltando ao desenho, trabalhei mais nos acessórios, desta vez. Estava achando a arte muito pobre, mesmo gostando do resultado que estava tendo, sentia falta de algo. Busquei referências de velhas algemas medievais e tirei as anteriores completamente, estavam horríveis, cartunizadas demais e não condiziam em nada com o resto da arte. Também apliquei texturas nelas, para dar um ar de ferro com um pouco de ferrugem nelas e nas correntes, acrescentei o colar e também o cinturão, estes bem inspirados no filme e nos quadrinhos desenhados pelo Cary Nord. Aliás, para quem não conhece, o Conan desenhado por este artista é fantástico. Tem muito dinamismo nas cenas, um traço limpo com uma pintura animal. É uma excelente referência pra que curte trabalhar este tema.

Enfim, não tenho a menor ideia de quando termino esta ilustração, até porque tem muita coisa que quero fazer no personagem e ainda tenho que criar um cenário compatível, e confesso não ter a menor ideia do que colocar. Se alguém tiver alguma sugestão, por favor, deixe uma mensagenzinha aí.

Mas bueno, já passei em muito da minha hora. Hasta luego, indiada!!