sexta-feira, 20 de abril de 2012

Entrevista com Alzir Alves - fundador do Rascunho Studio



Buenas, gurizada. Mais uma semana que passou, e mais uma entrevista que chegou. O convidado de hoje é Alzir Alves, fundador do Rascunho Studio, e vai responder algumas questões sobre a produção de quadrinhos atualmente.

Pra quem não sabe, o Rascunho Studio representa artistas de vários lugares do Brasil para as editoras americanas e consegue isto sem estar presente fisicamente no eixo Rio/São Paulo. Essa galera se citua em João Pessoa, no estado da Paraíba, e além do trabalho diário no estúdio, negociando com as editoras, traduzindo roteiros e controlando prazos dos agenciados, eles ainda ministram os cursos da sua escola de artes visuais.

Então chega de papo e vamos ao que interessa: como eu faço para trabalhar com quadrinhos? Alzir Alves responde a vocês:


1 - Bom, vamos começar falando de antes do Rascunho Studio. Como começou o seu interesse pelo desenho?

Al: Primeiramente obrigado pelo convite. É um grande prazer falar um pouco de mim e meus trabalhos como colorista e agenciador do Rascunho Studio e Cursos. Bem, desde de criança já gostava de desenhar e sempre tive o apoio de minha mãe. Gostava de fazer os personagens que via na TV e nas revistas. Gostava de todos os estilos, mas na minha adolescência me apaixonei pelos quadrinhos do Homem-Aranha.



 2 - Quando você começou a pensar em transformar isto em profissão e como foi o início de sua carreira profissional?

Al: Eu comecei a acreditar na profissão, quando conheci o ex-assistente de Mike Deodato. O José Augusto e sua esposa Marinalva me apresentaram ao Deodato e vi que meu sonho de trabalhar com quadrinhos estava mais perto do que eu pensava. Então comecei a estudar e praticar muito. A partir do ano 2000 eu comecei a pegar pequenos freelances de livros como desenhista, mas em 2007 veio minha primeira oportunidade de trabalhar como desenhista no mercado internacional pela na Ronin Studio através dos meus amigos Marcelo Salaza e Carlos Henry.  Meu portfólio eram os testes que eu fazia sempre, deste modo comecei a trabalhar como desenhista fazendo o lápis e convidei o Marcos Aurélio para ser meu assistente como arte-finalista. Depois desta etapa de trabalho montei o Rascunho Studio, onde comecei a agenciar outros artistas. Como meu tempo foi ficando apertando para desenhar, resolvi tentar ser colorista e fiz um teste de cor para uma editora chamada Monach Comics, então não parei mais de trabalhar como colorista. Claro que em algumas editoras com contrato de trabalho e outras como freelancer.




3 - Como se deu esta transição de artista para agente e como foram os primeiros trabalhos nesta função?

Al: Eu sempre procurei ser um artista de quadrinhos, mas percebi que poderia gerar oportunidades para outros e não só para mim. Eu tinha noção de todos os riscos de ser um agenciador, mas mesmo assim segui em frente.

Algumas pessoas me acharam um louco e não acreditaram no que eu estava fazendo. Mas sempre acreditei em mim e nos meus objetivos. Eu sou uma pessoa que não absorvo pensamento negativos. Uma coisa que não deu certo para alguém, não quer dizer que não vai dar certo para você. Com este pensamento segui em frente com o meu trabalho de agenciamento. Na minha busca por artistas, encontrei vários que me apoiaram muito no começo. Acreditaram e abraçaram o Rascunho Studio na fase inicial. Eu sou muito grato a todos eles! Alguns são ex-agenciados e outros estão comigo até hoje.




4 - Atualmente vocês agenciam vários artistas para o mercado americano de quadrinhos, entre artistas, arte-finalistas e coloristas. O que um artista precisa ter para ser representado por vocês e como ele deve proceder para enviar seu material para análise?

Al: Exato! Quando um artista que deseja trabalhar na área de quadrinhos, ele deve se preparar em conhecimento artístico. Ele vai ser avaliado como artista, então, ele deve obter conhecimento em anatomia, luz e sombra, perspectiva, narrativa, etc. Se não souber esses pontos fundamentais do desenho, ele tem que ter a consciência de que precisará estudar, fazer cursos para aprender. Ele tem que investir em si mesmo!!

Se for um colorista, ele tem que aprender a usar o photoshop ou outro que ele goste. Aprender sobre teoria de cores, sistema de RGB e CMYK, texturas, profundidade com cores e etc. O agenciador (ou o Editor) vai avaliar o artista pelo conhecimento acompanhado do seu talento. O conhecimento é seu portfólio e seus testes. O candidato tem que estudar e praticar todos os dias na atividade que ele deseja trabalhar. Sempre lembrando que é necessário respeitar prazos de testes e trabalhos. Quando alguém solicita um teste e não o faz, é como ele falasse para o avaliador que não sabe fazer ou não tem ritmo ainda de trabalho. Apresente ao avaliador o seu melhor. Então ele vai passar sempre testes para medir seu ritmo. Além de avaliar se você mantem a qualidade e se vai errar na narrativa. Se for bem, com certeza virá a ser agenciado.




5 - E como se dá esta apresentação do trabalho de um novo artista para as editoras e como elas escolhem o profissional?

Al: O agenciador vai apresentar sempre os seus profissionais. Então a editora vai solicitar para o candidato fazer um testes na sua área de atuação. O cliente irá avaliá-lo em todos os critérios que falei acima em outra resposta. O artista tem que se esforçar para fazer o seu melhor e impressionar o editor. O Agenciador faz 10% e o artista 90%, pois se o artista for sempre mal nos testes ele não tem como conseguir trabalhos. O artista tem que procurar ser sempre o melhor no que faz. O agenciador não tem poder de aprovação se o artista for ruim.



6 - Produzir o seu material para as editoras e controlar o seu prazo e dos artistas agenciados deve ser uma tarefa complicada, ainda mais agora com os cursos que vocês estão ministrando. Fale um pouco da sua rotina de trabalho:

Al: Realmente se eu estivesse só era impossível!! Eu sou o Diretor Geral do Rascunho, além de publicitário por formação. Aprendi muito cedo que ninguém trabalha sozinho, então aos poucos formei uma equipe de gerenciamento do Rascunho Studio e Cursos. Minha esposa a Nívia Alves ( Diretora administrativa do Rascunho) é responsável por boa parte de tudo que está acontecendo dentro da empresa. Ela cuida dos artistas e dos clientes, sempre me mantendo informado sobre tudo que está acontecendo, assim tenho como trabalhar em 3 edições ao mesmo tempo, como também, dar aula no Rascunho Cursos. Também contamos com a Ana Karla Albuquerque (Jornalista e tradutora do Rascunho Studio), ela é responsável por tradução dos roteiros e me acompanha em reuniões de vídeo conferência com editores.
Minha rotina é muito louca, eu acordo às 9hs e trabalho até às 3 da manhã. Quando vou dar aula no Rascunho Cursos, eu acordo às 7hs e durmo à 00hs. Alguns amigos falam que sou Nerd, (risos), pois gosto muito de trabalhar assistindo documentários, ouvindo podcast e às vezes escutando música. Sem falar que amo quadrinhos, filmes e seriados.



7 - Qual a importância de ir a convenções como a COMIC CON para os artistas e para o estúdio, e como fica o lado fã em eventos como este?

Al: A importância é conhecer os editores, fazer novos contato e conhecer os seus fãs. Nestes eventos, você deve ir para trabalhar e se divertir. Claro que a gente curte o evento, mas tem que saber separar os momentos.  Procurar saber se as pessoas estão gostando de seu trabalho para melhorar e evoluir mais sempre.



8 - A Rascunho Studio possui também uma escola, como citado anteriormente. Fale um pouco sobre ela, os cursos que vocês dispõe e qual o objetivo deles:

Al: Sim! Depois de 4 anos de atividade apenas como estúdio de agenciamento, o Rascunho Studio partiu para buscar e formar novos talentos, então nasceu o Rascunho Cursos. Com isso, foram abertos cursos de desenho para pessoas de todas as idades, desde iniciantes até estudantes com conhecimento prévio para turmas de histórias em quadrinhos de nível avançado. As aulas são para todos os estilos, comics em estilo norte americano, mangá e cartoon. Nós procuramos passar nos cursos tudo o que um artista precisa saber, tanto sobre a profissão, como também ética, valores, prazos, etc. 


9 - Para quais editoras a Rascunho Studio já prestou serviço? Ela atua exclusivamente com quadrinhos ou existem outras áreas em que vocês atuam, como concept art, character design e animação?

Al: Olha, eu não sou bom de lembrar o nome de tudo, mas foram vários clientes como: Ronin Studio, Monach Comics, Mongoose Publishing, Zenescope, Interferon, Silver Fox, Big Dog, Jester Press, agências de publicidade aqui do Brasil e dos Estados Unidos, escritores, etc. Foram muitos clientes nestes anos de existência do Rascunho. Também atuamos com ilustrações publicitárias, como cartilhas, mascotes e story-board.


10 - Eu sempre peço pros convidados citarem 5 artistas (curiosamente todos passam a perna e dão um jeito de citar mais), e com você não vai ser diferente. Portanto, 5 artistas que influenciam no seu trabalho:

Al: Eu quando desenhava, olhava sempre o Alan Davis, Neal Adams, Deodato, Marc Silvestre, Jim Lee. Depois que fui para as cores comecei a olhar: Alex Sinclair, Marcelo Maiolo, Rod Reis, Ney Ruffino, entre outros.





11 - Agora uma pergunta um pouco mais mercenária: como o mundo é movido a dinheiro e todos tem que comer e pagar suas contas, um artista agenciado, dependendo da qualidade de seu material, pode ganhar até quanto por trabalho em média e como é basicamente a a rotina de trabalho de um desenhista, de um arte-finalista e de um colorista após receber o trabalho em mãos?

Al: A rotina de cada artista é sempre individual, então ele tem uma meta. Fazer o melhor e entregar no prazo com qualidade. Quando se fala de valores é sempre algo muito relativo. Um artista que ninguém conhece pode ter uma pagina no valor de 50 a 70 dólares em editoras pequenas. Em editoras medias o valor é de 70 a 180 dólares por página. Se ele for para editoras maiores, o valor passa a mais de 200 dólares por página.
O grande problema de quem começa hoje, é achar que ele vale o mesmo valor de um artista top que passou anos para chegar onde chegou. Se você quer ganhar bem, tem que se esforçar muito e ser bom no que faz. Por que o editor vai avaliar o artista e dizer quanto ele paga por sua arte. Claro que tem artistas que dão sorte e pegam trabalhos logo com valor bom por página, mas se você não está neste nível ainda, tem que batalhar para chegar. É como qualquer emprego, você vale por aquilo que você faz de melhor. Aqui no Brasil não é diferente!
Tem artistas que conseguem viver de arte, mas tem outros que não conseguem e saem da profissão.



12 - Bueno, te agradeço muito mesmo por ter cedido este tempo para responder a estas perguntas, com certeza elas vão tirar as dúvidas de muitas pessoas sobre como basicamente funciona a produção de quadrinhos. Peço agora que fale diretamente aos que estão buscando entrar no mercado, rabiscando em seus cadernos e cheios de dúvidas se arriscam ser desenhistas como gostam, ou se partem para uma outra profissão qualquer que aparentemente tenha maior segurança:

Al: Muito obrigado pelo espaço e espero ter sido claro e passado boas dicas. Eu posso recomendar a todos que acreditem em si, mas estudem e pratiquem todos os dias. Sem isso não se chega ao seu objetivo. Boa sorte a todos um grande abraço!



 É, gurizada, esta foi a entrevista desta semana. Espero que tenham gostado, e caso tenham alguma dúvida deixe um comentário que responderei.
 Todas as imagens acima foram produzidas pelos agenciados do Racunho Studio nas diferentes etapas de produção de uma HQ e as fotos são de eventos  aulas e workshops promovidos pela equipe. Para mais informações e imagens, visitem o blog:
http://rascunhostudio.blogspot.com.br/

  E ficamos por aqui. Hasta luego, indiada!!

4 comentários:

Gilberto Queiroz disse...

Fala, Charles! Gostei muito do blog. Parabéns pelas matérias e entrevistas. Meus parabéns tb ao Alzir. Tomei a liberdade de linká-lo em uma postagem em meu blog: www.gilbertoqueiroz.blogspot.com
Grande abraço,

Diário de um desenhista em evolução. disse...

Olá, Gilberto. Que bom que gostaste do blog, fico contente que as matérias tenham agradado. E valeu mesmo pelo link e pelo texto que escreveste sobre ele no seu blog. Te agradeço muito!! Abs!! :D

Alex D'ates disse...

Muito bacana a matéria! Não conhecia a história do Rascunho Studios e, agora, torço mais ainda por essa galera! Parabens!

O Rascunho disse...

Eu que agradeço a vocês!! Um abraço!!

Alzir